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16 de março de 2012

Jorge Furtado: Pelo estado laico.

Sei que o assunto é incomodação certa, mas só agora fiquei sabendo disso e não consigo ficar quieto. O uso do plenário da Câmara Federal pela deputada Lauriete (PSC-ES) para cantar um hino religioso, com direito a playback e coro dos deputados presentes, foi o momento mais deprimente da história do Congresso Nacional. E olha que a concorrência é dura.

Nem quando o senador de Brasília chorou, garantindo não ter violado o painel do plenário, nem quando a deputada paulista dançou no plenário comemorando mais uma corrupção terminar em pizza, nem quando o deputado que enriqueceu jurou ter ganho mais de mil vezes na loteria, nem quando o Roberto Jefferson, de olho roxo, disse ter sido vítima da queda da gaveta de um armário, nem quando ACM, Maluf e Jader diziam barbaridades impublicáveis, nem quando Severino Cavalcanti, o cacique Juruna ou o Agnaldo Timóteo aprontavam suas presepadas, senti tanta vergonha de ser representado por estes políticos.
 
O uso da tribuna do Congresso Nacional para cantar qualquer coisa é um desrespeito e, se já não é, deveria ser proibido pelo regimento interno da casa. O uso da tribuna do Congresso Nacional para cantar hinos religiosos é totalmente inaceitável. A deputada deveria ser, no mínimo, advertida por grave quebra do decoro parlamentar.
 
A constituição brasileira garante a liberdade religiosa, mas o estado laico é condição mínima para uma democracia moderna. Teocracias são estados primitivos, onde preconceitos e neuroses coletivas se impõe sobre os mais básicos direitos humanos, onde delírios místicos corrompem a ciência e o bom senso.
 
Pensava-se que a mistura de religião e política havia sido superada com a revolução francesa. Não foi, governos fundamentalistas continuam apedrejando e mutilando mulheres, oprimindo homossexuais e minorias religiosas pelo mundo todo, pregando a guerra santa e o assassinato de infiéis.
 
A idéia de que a fé – um inalienável direito íntimo – sirva de parâmetro para reger a vida pública do país deve ser combatida a qualquer custo. Ou, quem sabe, possamos aceitar leis que proíbam certos cortes de cabelo, transfusões de sangue, consumo de carne de porco, o uso de elevadores aos sábados, consumo de bebidas alcoolicas e o sexo antes do casamento, como pregam diferentes igrejas e crenças?
 
Os brasileiros de bom senso precisam ter coragem de enfrentar o oportunismo religioso. A hipocrisia religiosa, que quer impedir mulheres de interromper a gestação de um filho sem cérebro, que quer impedir cientistas de fazer as pesquisas que podem salvar vidas e recuperar tetraplégicos, que impõe humilhação e sofrimento às minorias, deve ser combatida publicamente, com vigor.
 
Dizem que política e religião não se discutem, que é melhor não falar nisso. Pois eu acho que quando política e religião se misturam, silenciar é ser cúmplice. Cúmplice do obscurantismo que detém o progresso científico, da mistificação oportunista e lucrativa dos que enriquecem explorando a dor dos mais humildes, do preconceito tacanho contra as minorias, cúmplice da ignorância e da mediocridade.
 
Pelo direito à fé e pelo estado laico.  



Do Blog do Jorge Furtado

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